Me esqueci de contar que minha mãe prestes, a me dar a luz , no dia 31 de dezembro de 1922, não quis ir a uma festa de confraternização com os vizinhos e amigos para chegada do Ano Novo. Meu pai prometeu que não ficaria fora por muito tempo.
Pois é, não deu tempo, quando chegou em casa, logo após a meia noite eu já havia nascido, minha mãe se arranjou sozinha.
Até hoje penso que se tivesse esperado mais um pouquinho, minha data de nascimento seria 1923 , ou seja 1 ano amenos do que parece a primeira vista e mais ainda ganharia 2 presentes. Não que eu não ganhe presentes durante o ano, más, Natal e aniversário vem quase sempre num só pacote .
Éramos 6 , meus pais, meu irmão Cees e eu nascidos em s´hertogenbosch, Jan e Rick nascidos em Nuenen.
Rick, a caçula ficava sob minha responsabilidade quando estávamos longe da mamãe. As vezes, no inverno, o vento soprava tão forte que minha mãe a amarrava na minha cintura para que ela não levantasse vôo. Rick tinha um carrinho de boneca e dentro dele, apesar de ter boneca, tinha uma galinha vermelha bem gorducha com cobertinha em cima que fazia :-cró, cró, cró. Confesso que as vezes me irritava com esta incumbência de pajem da minha irmãzinha tão diferente de mim, muito delicada, cabelinhos louros, pela tão branquinha, quase transparente.
A nossa infância foi segura, sem medo, com confiança total nos nossos pais. Quando eu comecei estudar em Eindhoven estranhei muito com a maneira dos meus colega, a gente não tinha malicia, éramos criados de forma muito singela e pura.
A minha mãe, mevrouw Verhoeven, dedicava a maior parte de seu tempo cultivando a chácara junto com um ajudante e desta forma contribuía para aumentar a renda familiar, Eram frutas, verduras e legumes, bem como alguns animais de pequeno porte, graças a isto tivemos uma reserva de alimentos, no período da ocupação alemã. Eram batatas, cenouras , beterrabas, maçãs, peras, cerejas.... conservadas, apesar da temperatura abaixo de zero, em covas cobertas de palha e terra, durante a guerra ficavam num canto escondido da chácara . As compotas e conservas guardadas atrás de uma parede falsa dentro do celeiro.
Neste período tudo tinha que ser escondido, mesmo assim os alemães “MOFFENS” como nós os chamávamos, confiscaram o porquinho, galinhas e coelhos, que minha mãe criava. Tudo era levado para a Alemanha, para alimentar as tropas do exército.
Os vizinhos tinham o hábito de trocar parte da colheita entre si bem como contribuíam para as famílias vizinhas mais carentes da redondeza . Tínhamos uma variedade grande de alimentos. Meu pai , que trabalhava na Philips, esporadicamente convidava amigos do trabalho que vinham com suas famílias e voltavam para casa com suas sacolas carregadas de frutas, legumes e verduras. Até que se tornou voz corrente e pessoas que minha mãe mal conhecia, vinham nos visitar com o único propósito de fazer a feira.
Certo dia minha mãe acabou se aborrecendo, pois afinal despendia boa parte do seu tempo trabalhando na chácara, numa destas visitas, enquanto tomavam chá com biscoitos na sala, minha mãe mandou que eu e meu irmão tirássemos, das sacolas já penduradas nas bicicletas, tudo o que haviam colhido e colocássemos pedras no lugar. Meu pai nunca mencionou nada sobre o ocorrido talvez nem tenha ficado sabendo. Com isto as visitas interesseiras diminuíram razoavelmente.
O nossos vizinhos mais próximos tinham a cota de racionamento liberada pois eram alemães e o Sr Kresse que não tinha uma perna (por conta da primeira guerra de 1914) trazia comida e outros ítens as escondidas para nossa família pois alemães simpatizantes de holandeses eram severamente punidos. Os “Grüne Polizer” não tinham compaixão.
Os filhos foram intimados a servir na Alemanha e todos morreram no campo de batalhas ficando só o velho casal , logo após o término da guerra foram expulso da Holanda, mandados para a Alemanha sem lenço nem documento
Nenhum comentário:
Postar um comentário